Varre a Vaga

Para ler ouvindo: Lamentos – Jacob do Bandolim

-Estou atrasado- dizia em voz alta para mim mesmo.

O trânsito havia sido pior do que nunca, e eu só pensava no volume de demandas que teria de enfrenta naquela manhã. Eram relatórios, planilhas e apresentações a serem feitos antes da hora do almoço, e o relógio já quase batia 10.

Parecia que São Paulo toda decidiu trabalhar de carro, e isso refletia-se até na quantidade de vagas para que eu pudesse estacionar: não havia uma sequer. Eu me recusava a pagar estacionamento, pois já havia desembolsado uma fortuna apenas para deixar o carro parado durante meu expediente.

Quanto mais eu me demorava a estacionar, mais atrasado eu estava.

Até que, de longe, visualizo um espaço cujo poderia balizar! Acelerei muito a fim de que outro não tomasse aquilo que era meu por direito, aquele planejado por um arquiteto para acolher o meu veículo.

Parei paralelamente ao automóvel em frente à vaga, engatei a marcha ré e logo fui manobrando…

Tive de frear!

Havia uma senhora varrendo as folhas que haviam caído de uma árvore próxima à vaga. A razão para isso era que fazia parte de sua obrigação manter limpa a fachada do prédio em que trabalhava. Inclusive a calçada, inclusive no outono.

-Estou atrasado, não posso esperar!- disse e comecei a realizar a manobra. Mas aquela senhora não parou de varrer. E nem mesmo notou minha presença, minha pressão, meu pedido bruto de “por favor”. Estercei o volante e prossegui a baliza. Ela apenas me olhou, sem qualquer julgamento, e continuou a varrer.

Tendo desistido de fazer com que ela saísse de lá, decidi esperar. E esperei até que acabasse de juntar todas aquelas folhas, as catasse com uma imensa pá e colocasse cada uma delas em um imenso saco preto. Só então deu espaço, e ainda gesticulou de forma simpática me desejando um bom dia…

Estacionei rapidamente, corri para o escritório e logo fui ligando o computador. Abri meus e-mails, minhas tabelas, e logo veio a cobrança. – O prazo é apertado, não podemos perder a data, o cliente vai emputecer se não entregarmos hoje.- diziam de forma ríspida, beirando a ameaça.

É meus amigos… confesso que me irritei, mas confesso também que nada disso me fez trabalhar com pressa ou insignificantemente mais rápido. Apenas pensava que de agora em diante eu seria a senhora que varre a vaga.

 

 

Prelúdio Carioca

Para ler ouvindo: Falando de amor – Antônio Carlos Jobim 

-É incrível como na Bossa Nova a letra se encaixa perfeitamente à melodia, e como ela soa fluente: uma declaração de amor feita na forma de um argumento político tecido para nos convencer de que a economia do país vai bem, e que de o compositor se apaixonou à primeira vista pela garota que passeava despretensiosamente pelas tardes de Ipanema.

E o violão? Sequer faz um solo ou toca uma única nota isolada. É puro ritmo! O violão e a bateria cumprem funções tão próximas que se o percursionista da banda desaparecesse não haveria necessidade de substituí-lo de imediato, ou mesmo interromper uma apresentação… Sem falar no número de acordes fruto das inúmeras combinações entre apenas 6 cordas, e no jeito que eles se cadenciam num jogo perfeito entre tensão e alívio.

Gosto também quando há piano. Aliás, quando há piano e outros instrumentos que se ouve na música clássica. Posso até estar errado, mas no fundo sempre acreditei que a Bossa se diferencia do Jazz –principalmente para um leigo no assunto- pela facilidade em reconhecer elementos típicos dos gêneros eruditos.

É como se Chopin tivesse composto um prelúdio carioca – eu disse.

Foi aí então que ela, após um beijo e de me chamar reticentemente por lindo, levantou-se da cama e colocou Tom Jobim para tocar. Daquele momento em diante, eu que sempre fui um monólogo, me tornei parte de um diálogo.

Que seja João Gilberto

Para ler ouvindo:  S’Wonderful – João Gilberto

Se for pra dizer que é paixão,
que seja ela a música.
Ou que pelo menos esteja tocando alguma.

Afinal nada incendeia-se em silêncio.

E se depender de mim
que seja João Gilberto.
Para que eu possa queimar lentamente.

E que ainda o fogo acenda meus tantos cigarros,
que apaziguam a mente após a canção,
ou o corpo após a noite de amor.

Mãe, me faz Caetano

Para ler ouvindo: Alegria, Alegria – Caetano Veloso 

Me chamo Guilherme: um nome longo e sério. E é por isso que gosto de ser chamado de Gui. Porém, antes de ser Guilherme, era para eu ser Caetano. Sim! Esse seria meu nome até meu nascimento: Um nome também longo e sério.

Mas, se fosse Caetano, não iria aceitar apelidos ou abreviações, afinal ser chamado assim seria uma homenagem ao único artista do planeta reconhecido apenas pelo seu primeiro nome.

Além do mais, Guilherme, a referência para meu batismo, foi um político conhecido na década de 80 por um jingle que dizia “juntos chegaremos lá”. Uma bela canção até, mas sejamos sincero, não se compara mesmo à menos criativa das melodia de Caetano –se é que isso existe-…

Sem contar que sou egoísta demais para pensar que preciso reunir uma multidão para chegar aonde quer que seja lá.

Ah… Se eu pudesse mudar meu nome, não teria dúvidas em fazê-lo, embora só o faria se não dependesse de cartórios, e sim de uma máquina do tempo. Assombraria minha mãe em plenos 8 meses da minha própria gestação, cantarolando em seu ouvido:

“Mãe, me faz Caetano porque, querendo ou não, seu filho vai ser poeta.”

São Jorge e Jorge Ben

Para ler ouvindo:  Tristeza e Solidão – Baden Powell

Eram explícitos como uma metáfora.

Não ligavam

Vestiam as armas de Jorge: São Jorge e Jorge Ben. E só os Santos sabiam do bem que faziam um ao outro.

E aos outros.

A mim e todos os meus.

Não acreditavam nos astros, e sim no amanhã que rompia as noites cujo sempre protagonizavam.

Astros a seus modos. Que subiam ao céu feito bola de sabão, capaz de envolver a todos em raios de arco-iris.

Foram como um choque cósmico que ocorre de mil em mil anos e muda toda a dinâmica do universo.

Vou buscar meu violão

Para ler ouvindo: Someting I Dreamed Last Night – Miles Davis

Um garoto aprende trompete na sacada. A melodia que já era triste, se tornou um lamento à medida em que lhe faltara ar para alcançar as notas mais agudas, causando grande dissonância.

No apartamento à frente dois amigos conversavam. Nada linear: apenas projeções de um futuro que estava longe de acontecer. Um futuro incerto. – Há 10 anos eu pensei que com esta idade estaria estável financeiramente, pensando com minha esposa onde passaríamos as próximas férias – dizia um deles. – Mas vendi as minhas férias desse ano para comprar um relógio e algumas garrafas de gim – completou.

-E filhos, pensava que os teria? – Prossegue a conversa.

- Não sei viu!? Sempre fui meio avesso à ideia de ter filhos. O mundo é um lugar perigoso demais para que eu seja responsável pela vida de alguém! Não me sinto responsável nem pela minha própria vida! – Responde o outro amigo enquanto acende um cigarro.

- É, até que concordo! Além disso, você cria uma criança e a protege de toda a maldade do mundo, para que ela cresça e no fim das contas sua maior satisfação seja a meia hora diária de trompete, arranhando as notas que aprendeu quando era moleque…

Tragou lentamente.

-Sabe daquela missão que vai partir para marte só de ida em 2030? Tô pensando em me alistar como voluntário! Não me importaria de viver o resto do resto da minha vida de capacete por uma chance de recomeçar.

Apagou mais lentamente ainda a bituca fumada até o filtro.

Nesse momento o silêncio soou mais alto do que qualquer trompete poderia soar, e o amigo que não sabia se olhava as horas ou admirava a nova joia em seu pulso decide perguntar: – Tá com a gaita aí? Vou buscar meu violão no quarto e vamos ver se ainda rola “Blowin’ In The Wind” do Bob Dylan!

Timing

Para ler ouvindo: You don’t know me – Caetano

-Não posso perder o timing, já falo com vocês – exclamou Lucas.

Era uma quinta feira, mais de 11 da noite e havíamos tomado mais cervejas do que certamente tomaríamos somados todos os dias do fim de semana.

-Esta manhã me apareceu um cadaver dos bons, um daqueles que pensei que já estivera enterrado a 7 palmos… – Disse Lucas
-Que papo besta! Como assim cadaver?! – Perguntou Marcelo.
Marcelo, nunca antes estivera presente durante uma discussão sobre amores passados, não entendeu a expressão. Então expliquei-lhe que nomeávamos como cadaveres as mulheres que de alguma forma se foram e nos marcaram a ponto de, mesmo que por lembrança, nos assombrar.
-Cadáver de quem? Questionei. –Coisa antiga?
-Coisa de mais de dez anos! Apareceu, como quem não quer nada, e ainda questinou porquê nós não tínhamos dado certo! – Respondeu Lucas com um ar saudosista. E antes que continuasse, a conversa foi interrompida pelo toque de seu celular. Ao que ouvimos, pelo menos 3 mensagens de texto chegaram.

Neste instante venceu o silêncio, apenas ouvía-se o som das teclas do telephone sendo pressionadas, com a velocidade e vigor de quem está digitando um romance.
-CARALHO – Gritou Lucas.
-Porra, conta pra a gente o que tá rolando – Dissemos.
-Não posso perder o timing, já falo com vocês – exclamou Lucas.
E após quase 15 minutos de interjeicões, finalmente houve uma resposta: – estava ajudando uma amiga a se masturbar!

Houve mais silêncio do que enquanto Lucas digitava, e por mais fôssemos bons amigos, e totalmente livres de pudores em nossos discursos, aquilo soara embaraçoso.
-Ela disse que não conseguia gozar, e eu oferecia ajuda. Falei coisas que sei que ela gostaria de ouvir ou sentir… de leve, do tipo beijo no pescoço, ir descendo pelas costas…. – contou Lucas.
-E ela gozou? – perguntei.
-Não sei, a bateria dela acabou no meio da brincadeira –  lamentou-se .
Rimos e abrimos mais uma rodada de cervejas. A tensão foi embora em goles rápidos e longos. Estava calor, mesmo tratando-se de uma semana fria. Dias quentes, ou assumidos como quentes, pedem bebidas geladas. A cerveja foi a opção obvia, afinal todos iriam trabalhar no dia seguinte, ou pelo menos engararam-se desta forma. Sabíamos que uma Cuba-Libre ou um Gin Fizz seriam escolhas melhores, mas temíamos, de certa forma, o alcoolismo.

-Mas vem cá, Lucas, e o cadaver, acaba essa história! -disse.
-Ah! É mesmo! Ela me encontrou no Facebook e mencionou  que o casamento não ia bem, estava dando um tempo com o marido, decidindo-se por viver a sós para pensar na vida… pensar no que realmente queria! – contou Lucas.
-E porquê veio te procurar? –questionei.
-Tivemos alguns casos mal resolvidos durante o colégio, que perduraram até o começo da faculdade. Daí eu comecei a namorar, ela noivou e foi morar com o cara – Falou. Prosseguiu – No fundo também não seu porquê me procurou, apenas confidenciou que mesmo casada-entre-áspas, as vezes ainda se pegava pensando em mim, e não entendia a razão de nós não termos dado certo…

Mais momentos de silêncio tomaram o ambiente, silêncio este que só fora interrompido pelo barulho das tampinhas que caiam no chão inaugurando a próxima rodada trazida por Marcelo. Passava da meia noite, oficialmente era sexta feira e oficialmente a semana chegava ao fim. Brindaram a isso.

-E como acabou? O que você dissa para a moça? –Perguntou Marcelo.
-Inventei que tinha um compromisso e precisava sair correndo. Passei meu telefone, pedi para que, qualquer coisa, me ligasse, ou mandasse mensagens?

-Ela os fez? –Perguntei.
-É… sim… Mandou umas mensagens aí… – Resmungou Lucas.
-E o que ela mandou? Mais alguma confidencia? –Perguntei um pouco aflito, já que sei bem o que casos do passado, ou melhor, cadaveres mal enterrados, podem fazer coma cabeça de um homem.
-Ela disse… -Titubiou Lucas, mas prossegiu na sequência – Ela disse que não conseguia gozar, e eu ofereci ajuda!

-Ah sim… nessas horas é importante não perder o timing – Pensei em voz alta.