Que seja João Gilberto

Para ler ouvindo:  S’Wonderful – João Gilberto

Se for pra dizer que é paixão,
que seja ela a música.
Ou que pelo menos esteja tocando alguma.

Afinal nada incendeia-se em silêncio.

E se depender de mim
que seja João Gilberto.
Para que eu possa queimar lentamente.

E que ainda o fogo acenda meus tantos cigarros,
que apaziguam a mente após a canção,
ou o corpo após a noite de amor.

Mãe, me faz Caetano

Para ler ouvindo: Alegria, Alegria – Caetano Veloso 

Me chamo Guilherme: um nome longo e sério. E é por isso que gosto de ser chamado de Gui. Porém, antes de ser Guilherme, era para eu ser Caetano. Sim! Esse seria meu nome até meu nascimento: Um nome também longo e sério.

Mas, se fosse Caetano, não iria aceitar apelidos ou abreviações, afinal ser chamado assim seria uma homenagem ao único artista do planeta reconhecido apenas pelo seu primeiro nome.

Além do mais, Guilherme, a referência para meu batismo, foi um político conhecido na década de 80 por um jingle que dizia “juntos chegaremos lá”. Uma bela canção até, mas sejamos sincero, não se compara mesmo à menos criativa das melodia de Caetano –se é que isso existe-…

Sem contar que sou egoísta demais para pensar que preciso reunir uma multidão para chegar aonde quer que seja lá.

Ah… Se eu pudesse mudar meu nome, não teria dúvidas em fazê-lo, embora só o faria se não dependesse de cartórios, e sim de uma máquina do tempo. Assombraria minha mãe em plenos 8 meses da minha própria gestação, cantarolando em seu ouvido:

“Mãe, me faz Caetano porque, querendo ou não, seu filho vai ser poeta.”

São Jorge e Jorge Ben

Para ler ouvindo:  Tristeza e Solidão – Baden Powell

Eram explícitos como uma metáfora.

Não ligavam

Vestiam as armas de Jorge: São Jorge e Jorge Ben. E só os Santos sabiam do bem que faziam um ao outro.

E aos outros.

A mim e todos os meus.

Não acreditavam nos astros, e sim no amanhã que rompia as noites cujo sempre protagonizavam.

Astros a seus modos. Que subiam ao céu feito bola de sabão, capaz de envolver a todos em raios de arco-iris.

Foram como um choque cósmico que ocorre de mil em mil anos e muda toda a dinâmica do universo.

Vou buscar meu violão

Para ler ouvindo: Someting I Dreamed Last Night – Miles Davis

Um garoto aprende trompete na sacada. A melodia que já era triste, se tornou um lamento à medida em que lhe faltara ar para alcançar as notas mais agudas, causando grande dissonância.

No apartamento à frente dois amigos conversavam. Nada linear: apenas projeções de um futuro que estava longe de acontecer. Um futuro incerto. – Há 10 anos eu pensei que com esta idade estaria estável financeiramente, pensando com minha esposa onde passaríamos as próximas férias – dizia um deles. – Mas vendi as minhas férias desse ano para comprar um relógio e algumas garrafas de gim – completou.

-E filhos, pensava que os teria? – Prossegue a conversa.

- Não sei viu!? Sempre fui meio avesso à ideia de ter filhos. O mundo é um lugar perigoso demais para que eu seja responsável pela vida de alguém! Não me sinto responsável nem pela minha própria vida! – Responde o outro amigo enquanto acende um cigarro.

- É, até que concordo! Além disso, você cria uma criança e a protege de toda a maldade do mundo, para que ela cresça e no fim das contas sua maior satisfação seja a meia hora diária de trompete, arranhando as notas que aprendeu quando era moleque…

Tragou lentamente.

-Sabe daquela missão que vai partir para marte só de ida em 2030? Tô pensando em me alistar como voluntário! Não me importaria de viver o resto do resto da minha vida de capacete por uma chance de recomeçar.

Apagou mais lentamente ainda a bituca fumada até o filtro.

Nesse momento o silêncio soou mais alto do que qualquer trompete poderia soar, e o amigo que não sabia se olhava as horas ou admirava a nova joia em seu pulso decide perguntar: – Tá com a gaita aí? Vou buscar meu violão no quarto e vamos ver se ainda rola “Blowin’ In The Wind” do Bob Dylan!

Timing

Para ler ouvindo: You don’t know me – Caetano

-Não posso perder o timing, já falo com vocês – exclamou Lucas.

Era uma quinta feira, mais de 11 da noite e havíamos tomado mais cervejas do que certamente tomaríamos somados todos os dias do fim de semana.

-Esta manhã me apareceu um cadaver dos bons, um daqueles que pensei que já estivera enterrado a 7 palmos… – Disse Lucas
-Que papo besta! Como assim cadaver?! – Perguntou Marcelo.
Marcelo, nunca antes estivera presente durante uma discussão sobre amores passados, não entendeu a expressão. Então expliquei-lhe que nomeávamos como cadaveres as mulheres que de alguma forma se foram e nos marcaram a ponto de, mesmo que por lembrança, nos assombrar.
-Cadáver de quem? Questionei. –Coisa antiga?
-Coisa de mais de dez anos! Apareceu, como quem não quer nada, e ainda questinou porquê nós não tínhamos dado certo! – Respondeu Lucas com um ar saudosista. E antes que continuasse, a conversa foi interrompida pelo toque de seu celular. Ao que ouvimos, pelo menos 3 mensagens de texto chegaram.

Neste instante venceu o silêncio, apenas ouvía-se o som das teclas do telephone sendo pressionadas, com a velocidade e vigor de quem está digitando um romance.
-CARALHO – Gritou Lucas.
-Porra, conta pra a gente o que tá rolando – Dissemos.
-Não posso perder o timing, já falo com vocês – exclamou Lucas.
E após quase 15 minutos de interjeicões, finalmente houve uma resposta: – estava ajudando uma amiga a se masturbar!

Houve mais silêncio do que enquanto Lucas digitava, e por mais fôssemos bons amigos, e totalmente livres de pudores em nossos discursos, aquilo soara embaraçoso.
-Ela disse que não conseguia gozar, e eu oferecia ajuda. Falei coisas que sei que ela gostaria de ouvir ou sentir… de leve, do tipo beijo no pescoço, ir descendo pelas costas…. – contou Lucas.
-E ela gozou? – perguntei.
-Não sei, a bateria dela acabou no meio da brincadeira –  lamentou-se .
Rimos e abrimos mais uma rodada de cervejas. A tensão foi embora em goles rápidos e longos. Estava calor, mesmo tratando-se de uma semana fria. Dias quentes, ou assumidos como quentes, pedem bebidas geladas. A cerveja foi a opção obvia, afinal todos iriam trabalhar no dia seguinte, ou pelo menos engararam-se desta forma. Sabíamos que uma Cuba-Libre ou um Gin Fizz seriam escolhas melhores, mas temíamos, de certa forma, o alcoolismo.

-Mas vem cá, Lucas, e o cadaver, acaba essa história! -disse.
-Ah! É mesmo! Ela me encontrou no Facebook e mencionou  que o casamento não ia bem, estava dando um tempo com o marido, decidindo-se por viver a sós para pensar na vida… pensar no que realmente queria! – contou Lucas.
-E porquê veio te procurar? –questionei.
-Tivemos alguns casos mal resolvidos durante o colégio, que perduraram até o começo da faculdade. Daí eu comecei a namorar, ela noivou e foi morar com o cara – Falou. Prosseguiu – No fundo também não seu porquê me procurou, apenas confidenciou que mesmo casada-entre-áspas, as vezes ainda se pegava pensando em mim, e não entendia a razão de nós não termos dado certo…

Mais momentos de silêncio tomaram o ambiente, silêncio este que só fora interrompido pelo barulho das tampinhas que caiam no chão inaugurando a próxima rodada trazida por Marcelo. Passava da meia noite, oficialmente era sexta feira e oficialmente a semana chegava ao fim. Brindaram a isso.

-E como acabou? O que você dissa para a moça? –Perguntou Marcelo.
-Inventei que tinha um compromisso e precisava sair correndo. Passei meu telefone, pedi para que, qualquer coisa, me ligasse, ou mandasse mensagens?

-Ela os fez? –Perguntei.
-É… sim… Mandou umas mensagens aí… – Resmungou Lucas.
-E o que ela mandou? Mais alguma confidencia? –Perguntei um pouco aflito, já que sei bem o que casos do passado, ou melhor, cadaveres mal enterrados, podem fazer coma cabeça de um homem.
-Ela disse… -Titubiou Lucas, mas prossegiu na sequência – Ela disse que não conseguia gozar, e eu ofereci ajuda!

-Ah sim… nessas horas é importante não perder o timing – Pensei em voz alta.

Garrafas de Gim

Para ler ouvindo: All of Me – Louis Armstrong

Aquelas garrafas, cada uma delas, continha muito mais do que um litro de histórias.

Guardei sistematicamente todas as garrafas de gim que bebi nos últimos anos, e garanto que não foram poucas. Poucas também não foram as histórias. Afinal, como dizem por aí, ninguém toma gim sem razões tão fortes quanto a própria bebida.

Porém um dia desses, chegando em casa sem saber ao certo se sorria pela embriaguez ou por carregar mais um casco debaixo do braço, percebo que toda a minha coleção fora jogada fora. Confundida com lixo em meio a toda minha baderna…

Atônito e perplexo, senti que parte de minhas memórias também deixaram de existir. Mesmo entendendo que as histórias continuariam vivas, eu não poderia mais contá-las apontando garrafa a garrafa: – Esta aqui, cozeu em banho-maria meu coração partido… esta outra foi responsável pelas maior crise de risos de minha vida… esta daqui, é uma longa história… -.

 E a recordação tornou-se apenas um devaneio fisicamente intangível.

O Último Soneto

Para ler ouvindo: The Long and Winding Road – The Beatles

De tanto que eu me entreguei
de mim não resta mais nada,
um suspiro… uma palavra…
de todo o amor que jurei.

A chama que não se apaga
que com você, eu ateei,
de tanto que desejei
é só uma lembrança vaga.

Não restou nada, senão
uma ponta de saudade
que aperta o coração.

Nada mais do que a impressão
de que nada foi verdade,
não passou de ilusão.